o que é ser mulher?

Ser mulher, pra mim, nunca coube nessas ideias prontas de força que o mercado adora distribuir como se fossem elogio. (Embora eu entenda que muitas vezes precisamos projeta-las para sermos ouvidas em nossa carreira).

Eu desconfio dessa imagem da mulher que aguenta tudo, resolve tudo, e ainda mantém beleza, lucidez e performance emocional como se fossem parte do pacote. Tem algo de muito violento nesse modelo, mesmo quando ele vem embalado como admiração.

Eu penso nisso com mais peso desde que me tornei mãe de outra mulher, porque olhar pra uma criança que ainda não aprendeu a se calar faz lembrar de tudo que você aprendeu a calar antes de aprender a falar. E aí você percebe que crescer, pra muitas de nós, teve muito mais a ver com se adaptar do que com amadurecer. Com perceber cedo demais o que era melhor não dizer, que intensidade precisava ser dosada, que tipo de presença era mais bem aceita, que versão de nós circulava com menos atrito.

O ajuste que parece maturidade vai virando hábito, o hábito vai virando identidade, e em algum ponto você já não sabe mais o que era genuinamente seu e o que foi sendo negociado pra circular com menos atrito.

O que me interessa é pensar em quantas mulheres foram ensinadas a confundir maturidade com contenção permanente, vínculo com concessão, inteligência com autocensura, elegância com apagamento bem executado.

E é por isso que eu volto tanto ao tema de que precisamos fazer acordos e se preciso colocar limites, pois esses movimentos de colocarmos nossa voz é uma forma de linguagem. Uma forma de dizer quem entra e quem não entra, o que cabe, o que custa caro demais, o que já não pode continuar sendo negociado. Em muitos casos, é ali que a identidade finalmente começa. E o posicionamento também.

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Tem mulher que passou tanto tempo aprendendo a sustentar o conforto dos outros que, quando finalmente começa a escutar o próprio incômodo, quase sente culpa. Eu penso nisso desde que me tornei mãe, com uma intensidade que não consigo mais descartar. Olhar pra uma criança que ainda não aprendeu a se calar faz lembrar de tudo que você aprendeu a calar antes de aprender a falar. E aí você percebe que crescer, pra muitas de nós, teve muito mais a ver com se adaptar do que com amadurecer. Com perceber cedo demais o que era melhor não dizer, que intensidade precisava ser dosada, que tipo de presença era mais bem aceita, que versão de nós circulava com menos atrito. Esse ajuste fino vai acontecendo tão devagar que parece sabedoria, até o momento em que você olha pra trás e percebe que aquilo foi erosão. — BRUNA MENDES

Eu tenho cada vez menos interesse em qualquer ideia de feminino que dependa de domesticação bem-feita. O que me interessa é a mulher que começa a perceber o preço simbólico de ter sido tão hábil, tão lida como fácil de conviver, enquanto uma parte fundamental dela ia sendo negociada em silêncio. Porque dizer não carrega muito mais do que recusa. Às vezes é a primeira vez que uma mulher volta a caber dentro da própria vida. E essa é uma frase que eu não consigo mais ler sem sentir o peso dela, agora que estou criando alguém que ainda não sabe que vai precisar aprender isso também.


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