miumiu: o avental na passarela e o trabalho que o mundo quase nunca vê

Um devaneio sobre o dia do empreendedorismo, o desfile da miumiu, invisibilidade e sobre a voz da marca projetada no mundo me lembra com carinho porque escolhi trabalhar com comunicação. São as histórias, sempre elas.

—-

Nos últimos dias, vi várias pessoas passando pela minha timeline celebrando o dia do empreendedorismo, e confesso que esqueci, apesar de ser uma data que sempre gosto de comentar, principalmente quando o assunto é empreendedorismo feminino. Para mim, é bonito ver tanta gente construindo o próprio caminho. Mas foi outro acontecimento que me parou essa semana: o desfile da Miu Miu. Me peguei em um devaneio unindo esses dois acontecimentos a partir de um paradoxo que criei na minha própria mente, enquanto o mundo exaltava a conquista do empreendedorismo, uma marca escolheu falar sobre o trabalho que quase nunca é visto.

Há quase quinze anos vivo da comunicação. Já vi discursos irem e voltarem, marcas nascerem e desaparecerem, modas se repetirem com novas nuances, discursos, modelagens e embalagens. Mas poucas vezes algo me provocou como esse desfile. Primeiro veio a surpresa, depois um tipo de calor antigo, um sentido que parecia estar adormecido. Ver uma marca usar o que vende para dizer o que importa me lembrou por que escolhi trabalhar com marcas, porque o que me cativa é o discurso, são as histórias.

A coleção colocou o avental no centro da passarela. A marca descreveu o gesto como "uma reflexão sobre os desafios e adversidades do trabalho feminino. Estamos confrontando e abordando sua invisibilidade." E é isso que, para mim, torna a Miu Miu relevante: a capacidade de usar a moda como pensamento.

O avental, por séculos, cobriu mulheres que trabalharam em silêncio. Esteve em cozinhas, fábricas, casas, salões. Testemunhou esforço, cuidado e inteligência que o mundo não soube ver. Quando uma marca o leva à passarela, ela cria espaço para escuta. Pensei muito antes de dizer isso, por não saber se haveria espaço de fala, mas me tocou o fato de que há poder onde disseram que havia servidão, há história onde tentaram apagar autoria.

miumiubranding
 

Ousadia? Eu vejo maturidade criativa. A Miu Miu mostrou que uma marca pode pensar e, quando pensa, muda o modo como o mundo sente. E talvez essa maturidade seja o que mais falte a muitas marcas hoje. Neste contraste com o dia do empreendedorismo, percebo que empreender, criar e liderar uma carreira ou um negócio é também se permitir pensar com profundidade. O que se vive se torna visão. E é justamente por isso que esse desfile me tocou tanto.

Há também um movimento mais amplo. O luxo começa a deslocar o olhar. Novas classes ascendem, novas vozes ganham poder de escolha, novos desejos pedem espaço. O velho discurso perde força? O novo discurso do luxo nasce do reconhecimento? Não sei, talvez. Mas acredito que quando uma marca fala sobre trabalho, fala também sobre acesso. E talvez esteja aí parte da força dessa coleção: uma marca de luxo que observa o comum com respeito e o traduz em imagem.

Foto reprodução: Miumiu Originals

Vi muitas falas sobre empreendedorismo feminino nos últimos dias, mas o que esse desfile me lembrou é que empreender não é apenas abrir caminhos, é ter coragem de mantê-los abertos, de bancar ideias mesmo quando o mundo parece não escutar. (E fazer todo um trabalho de marca até que seus discursos sejam ouvidos, isso é uma das coisas que faço na Casa Simetria.)

Quem está à frente do próprio negócio sabe o quanto esse gesto significa. Estar à frente, estar presente, colocar a própria voz é permitir que o mundo se transforme um pouco com cada uma de nossas ideias que saem da gaveta.

Eu gosto disso. Abraçar o que se acredita dá trabalho. Mas o preço da mesmice é sempre mais alto que o risco de evoluir e ser vista verdadeiramente pelo que se acredita. O nome disso não seria autenticidade?

Anterior
Anterior

o que é ser mulher?

Próximo
Próximo

a importância do afeto no branding:lições de adélia prado